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Title: Livro de Sror Sadade
Author: Espanca, Florbela (1894-1930)
Date of first publication: 1923
Place and date of edition used as base for this ebook:
   Coimbra: Gonalves, 1934 (_Sonetos Completos_)
Date first posted: 4 June 2008
Date last updated: 4 June 2008
Project Gutenberg Canada ebook #126

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Titre: Livro de Sror Sadade
Auteur: Espanca, Florbela (1894-1930)
Date de la premire publication: 1923
Lieu et date de l'dition utilise comme modle pour ce livre
   lectronique: Coimbra: Gonalves, 1934 (_Sonetos Completos_)
Date de la premire publication sur Project Gutenberg Canada:
   4 juin 2008
Date de la dernire mise  jour:
   4 juin 2008
Livre lectronique de Project Gutenberg Canada no 126

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                LIVRO DE SROR SADADE

                        (1923)


                  de Florbela Espanca




    _Nota prvia_: Este livro foi publicado na colectnea _Sonetos
    Completos_. Coimbra, 1934: Livraria Gonalves.




          _Irm, Sror Sadade, ah! se eu pudesse
          Tocar de aspirao a nossa vida,
          Fazer do mundo a Terra Prometida
          Que ainda em sonho s vezes me aparece!_

                                    =Amrico Duro=.


                    _Il n'a pas  se plaindre celui qui attend
                    un sentiment plus ardent et plus gnreux.
                    Il n'a pas  se plaindre celui qui attend le
                    dsir d'un peu plus de bonheur, d'un peu plus
                    de beaut, d'un peu plus de justice._

                         =Maeterlinck=--La Sagesse et la Destine.




SROR SADADE

                    A Amrico Duro.


Irm, Sror Sadade me chamaste...
E na minh'alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fsse
A luz do prprio sonho que sonhaste.

Numa tarde de outono o murmuraste:
Tda a mgoa do outono le me trouxe:
Jamais me ho de chamar outro mais doce:
Com le bem mais triste me tornaste...

E baixinho, na alma de minh'alma,
Como bno de sol que afaga e acalma,
Nas horas ms de febre e de ansiedade,

Como se fssem ptalas caindo,
Digo as palavras dsse nome lindo
Que tu me deste:  Irm, Sror Sadade...




O NOSSO LIVRO

                    A A. G.


Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as flhas devagar, com geito,
Como se fssem ptalas de flor.

Olha que eu outro j no sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
No esfolhes os lrios com que  feito
Que outros no tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ningum!  S meu!  S teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos s nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor!  Mas quanta, quanta gente
Dir, fechando o livro docemente:
Versos s nossos, s de ns os dois!...




O QUE TU S


s Aquela que tudo te entristece,
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a Mgoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece,
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e esquece!

Mar-Morto sem mars nem ondas largas,
A rastejar no cho, como as mendigas,
Todo feito de lgrimas amargas!

s ano que no teve primavera...
Ah!  No seres como as outras raparigas
 Princesa Encantada da Quimera!...




FANATISMO


Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida,
Meus olhos andam cegos de te ver!
No s sequer razo do meu viver,
Pois que tu s j tda a minha vida!

No vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma histria tantas vezes lida!

Tudo no mundo  frgil, tudo passa...
Quando me dizem isto, tda a graa
Duma bca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de-rastros:
Ah!  Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu s como Deus:  Principio e Fim!...




ALENTEJANO

                     Buja.


Deu agora meio-dia; o sol  quente
Beijando a urze triste dos outeiros.
Nas ravinas do monte andam ceifeiros
Na faina, alegres, desde o sol nascente.

Cantam as raparigas, brandamente,
Brilham os olhos negros, feiticeiros;
E h perfis delicados e trigueiros
Entre as altas espigas d'oiro ardente.

A terra prende aos dedos sensuais
A cabeleira loira dos trigais
Sob a bno dulcssima dos cus.

H gritos arrastados de cantigas...
E eu sou uma daquelas raparigas...
E tu passas e dizes:  Salve-os Deus!




FUMO


Longe de ti so ermos os caminhos,
Longe de ti no h luar nem rosas,
Longe de ti h noites silenciosas,
H dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos so dois vlhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mos cariciosas,
Tuas mos doces, plenas de carinhos!

Os dias so outonos: choram... choram...
H crisntemos roxos que descoram...
H murmrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho!  Estendo os braos!
E le ,  meu Amor, pelos espaos,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...




QUE IMPORTA?...


Eu era a desdenhosa, a indiferente.
Nunca sentira em mim o corao
Bater em violncias de paixo,
Como bate no peito  outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de desejo ou de emoo.
Emquanto as asas loiras da iluso
Abrem dentro de mim ao sol nascente.

Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte:
Como nascida em carinhoso monte,
Tda ela  riso e  frescura e graa!

Nela refresca a bca um s instante...
Que importa?...  Se o cansado viandante
Bebe em tdas as fontes... quando passa?...




MEU ORGULHO


Lembro-me o que fui dantes.  Quem me dera
No me lembrar!  Em tardes dolorosas
Eu lembro-me que fui a primavera
Que em muros vlhos fz nascer as rosas!

As minhas mos outrora carinhosas.
Pairavam como pombas...  Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros vlhos no do rosas!

So sempre os que eu recordo que me esquecem...
Mas digo para mim no me merecem...
E j no fico to abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que tambm  orgulho ser szinha,
E tambm  nobreza no ter nada!




OS VERSOS QUE TE FIZ


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha bca tem p'ra te dizer!
So talhados em mrmore de Paros
Cinzelados por mim p'ra te oferecer.

Tm dolncia de veludos caros,
So como sdas plidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos p'ra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu no t'os digo ainda...
Que a bca da mulher  sempre linda
Se dentro guarda um verso que no diz!

Amo-te tanto!  E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te no dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!




FRIEZA


Os teus olhos so frios como as espadas,
E claros como os trgicos punhais;
Tm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lminas geladas.

Vejo nles imagens retratadas
De abandonos cruis e desleais,
Fantsticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!

Mas no te invejo, Amor, essa indiferena,
Que viver neste mundo sem amar
 pior que ser cego de nascena!

Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirs a soluar:
Ah!  Quem me dera, Irm amar assim...




O MEU MAL

                    A meu Irmo.


Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipreste e caravela e dor!

Fui tudo que no mundo h de maior;
Fui cisne e lrio e guia e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou um cnico riso de Chamfort...

Fui a herldica flor de agrestes cardos,
Deram as minhas mos aroma aos nardos...
Deu cr ao eloendro a minha bca...

Ah!  De Boabdil fui lgrima na Espanha!
E foi de l que eu trouxe esta nsia estranha!
Mgoa no sei de qu!  Sadade louca!




A NOITE DESCE


Como plpebras roxas que tombassem
Sbre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce... Ah! doces mos piedosas
Que os meus olhos tristssimos fechassem!

Assim mos de bondade me embalassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braadas de lrios e mimosas,
No crepsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilaz,
A noite pe-me embriagada, louca!

E a noite vai descendo muda e calma...
Meu doce Amor, tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha bca!




CARAVELAS


Cheguei a meio da vida j cansada
De tanto caminhar! J me perdi!
Dum estranho pais que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e no sei nada.
E as trres de marfim que constru
Em trgica loucura as destru
Por minhas prprias mos de malfadada!

Se eu sempre fui assim ste Mar Morto:
Mar sem mars, sem vagas e sem prto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar...
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lanei  vida e no voltaram!...




INCONSTNCIA


Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi  Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto claro nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a bca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrs do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...

E ste amor que assim me vai fugindo
 igual a outro amor que vai surgindo,
Que h de partir tambm... nem eu sei quando...




O NOSSO MUNDO


Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu olhar eterno
Como poisam as flhas sbre os lagos...

Os meus sonhos agora so mais vagos...
O teu olhar em mim, hoje  mais terno...
E a Vida j no  o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e presagos!

A Vida, meu Amor, quero viv-la!
Na mesma taa erguida em tuas mos.
Bcas unidas hemos de beb-la!

Que importa o mundo e as iluses defuntas?...
Que importa o mundo e seus orgulhos vos?...
O mundo, Amor!... As nossas bcas juntas!...




PRINCE CHARMANT...

                    A Ral Proena.


No lnguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de tda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas!

 noites da minh'alma tenebrosas!
Bcas sangrando beijos, flor que sente...
Olhos postos num sonho, humildemente...
Mos cheias de violetas e de rosas...

E nunca O encontrei!... Prince Charmant...
Como audaz cavaleiro em vlhas lendas
Vir, talvez, nas nvoas da manh!

Em tda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frgeis dedos frgeis rendas...
--Nunca se encontra Aqule que se espera...--




ANOITECER


A luz desmaia num fulgor d'aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que no creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

No sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bnos d'amor p'ra tda a gente!
E a minha alma sombria e penitente
Solua no infinito desta hora...

Horas tristes que so o meu rosrio...
 minha cruz de to pesado lenho!
 meu spero e intrmino Calvrio!

E a esta hora tudo em mim revive:
Sadades de sadades que no tenho...
Sonhos que so os sonhos dos que eu tive...




ESFINGE


Sou filha da charneca erma e selvagem:
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d'oiro, p'los caminhos,
Desta minh'alma ardente so a imagem.

E ansiosa desejo-- v miragem--
Que tu e eu, em beijos e carinhos.
Eu a Charneca, e tu o Sol, szinhos,
Fssemos um pedao da pasagem!

E  noite,  hora doce da ansiedade,
Ouviria da bca do luar
O _De Profundis_ triste da sadade...

E,  tua espera, emquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar...
Esfinge olhando, na plancie enorme...




TARDE DEMAIS


Quando chegaste emfim, para te ver
Abriu-se a noite em mgico luar;
E p'ra o som de teus passos conhecer
Ps-se o silncio, em volta, a escutar...

Chegaste, emfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que no pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia d'oiro dos desertos
Procurara-te em vo! Braos abertos,
Ps nus, olhos a rir, a bca em flor!

E h cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha bca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde,  meu Amor?!...




CINZENTO


Poeiras de crepsculos cinzentos.
Lindas rendas vlhinhas, em pedaos,
Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braos,
Como brancos fantasmas, sonolentos...

Monges soturnos deslizando lentos,
Devagarinho, em misteriosos passos...
Perde-se a luz em lnguidos cansaos...
Ergue-se a minha cruz dos desalentos!

Poeiras de crepsculos tristonhos,
Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos,
A nvoa das sadades que deixaste!

Hora em que o teu olhar me deslumbrou...
Hora em que a tua bca me beijou...
Hora em que fumo e nvoa te tornaste...




NOTURNO


Amor! Anda o luar, todo bondade,
Beijando a terra, a desfazer-se em luz...
Amor! So os ps brancos de Jesus
Que andam pisando as ruas da cidade!

E eu ponho-me a pensar... Quanta sadade
Das iluses e risos que em ti pus!
Traaste em mim os braos duma cruz,
Nles pregaste a minha mocidade!

Minh'alma, que eu te dei, cheia de mgoas,
 nesta noite o nenfar dum lago
Estendendo as asas brancas sbre as guas!

Poisa as mos nos meus olhos, com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho...




MARIA DAS QUIMERAS


Maria das Quimeras me chamou
Algum... Pelos castelos que eu ergui,
P'las flores d'oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.

Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh'alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi,
Que da minh'alma, Algum, tudo levou!

Maria das Quimeras, que fim deste
s flores d'oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?

Pelo mundo, na vida, o que  que esperas?...
Aonde esto os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?




SADADES


Sadades! Sim... talvez... e porque no?...
Se o nosso sonho foi to alto e forte
Que bem pensara v-lo at  morte
Deslumbrar-me de luz o corao!

Esquecer! Para qu?... Ah, como  vo!
Que tudo isso, Amor, nos no importe.
Se le deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o po!

Quantas vezes, Amor, j te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fsse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a sadade andasse prsa a mim!




RUNAS


Se  sempre outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um deixa-os cair...
Que a vida  um constante derruir
De palcios do Reino das Quimeras!

E deixa sbre as runas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida  um continuo destruir
De palcios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rtilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para ergu-los
Mais altos do que as guias pelo ar!

Sonhos que tombam!  Derrocada louca!
So como os beijos duma linda bca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...




CREPSCULO


Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes
Borboletas de sol, de asas magoadas.
Poisam nos meus, suaves e cansadas,
Como em dois lrios roxos e dolentes...

E os lrios, fecham... Meu amor no sentes?
Minha bca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres mos so maceradas
Como vagas sadades de doentes...

O silncio abre as mos... entorna rosas...
Andam no ar carcias vaporosas
Como plidas sdas, arrastando...

E a tua bca rubra ao p da minha
 na suavidade da tardinha
Um corao ardente, palpitando...




DIO?

                     Aurora Aboim.


dio por le?  No... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado.
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se  vida assim roubei todo o encanto...

Que importa se mentiu?  E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trgico, gelado,
Como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah!  Nunca mais am-lo  j bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fra meu, calma e serena!

dio seria em mim sadade infinda,
Mgoa de o ter perdido, amor ainda.
dio por le?  No... no vale a pena...




RENNCIA


A minha mocidade outrora eu pus
No tranqilo convento da tristeza;
L passa dias, noites, sempre prsa,
Olhos fechados, magras mos em cruz...

L fora, a Lua, Satanaz, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza...
 como um beijo ardente a Natureza...
A minha cela  como um rio de luz...

Fecha os teus olhos bem!  No vejas nada!
Empalidece mais!  E, resignada,
Prende os teus braos a uma cruz maior!

Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a bca de cinzas e de terra,
 minha mocidade tda em flor!




A VIDA


 vo o amor, o dio, ou o desdm;
Intil o desejo e o sentimento...
Lanar um grande amor aos ps d'algum
O mesmo  que lanar flores ao vento!

Todos somos no mundo um Pedro Sem,
Uma alegria  feita dum tormento,
Um riso  sempre o eco dum lamento,
Sabe-se l um beijo donde vem!

A mais nobre iluso morre... desfaz-se...
Uma sadade morta em ns renasce
Que no mesmo momento  j perdida...

Amar-te a vida inteira eu no podia.
A gente esquece sempre o bem dum dia.
Que queres, meu Amor, se  isto a vida!...




HORAS RUBRAS


Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volpia, noites quentes
Onde h risos de virgens desmaiadas...

Oio as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
So pedaos de prata p'las estradas...

Os meus lbios so brancos como lagos...
Os meus braos so leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sdas puras...

Sou chama e neve branca e misteriosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
 meu Poeta, o beijo que procuras!




SUAVIDADE


Poisa a tua cabea dolorida
To cheia de quimeras, de ideal,
Sbre o regao branco e maternal
Da tua doce Irm compadecida.

Hs de contar-me nessa voz to qu'rida
A tua dor que julgas sem igual,
E eu, p'ra te consolar, direi o mal
Que  minha alma profunda fz a Vida.

E hs de adormecer nos meus joelhos...
E os meus dedos enrugados, vlhos,
Ho de fazer-se leves e suaves...

Ho de pousar-se num fervor de crente.
Rosas brancas tombando docemente,
Sbre o teu rosto, como penas d'aves...




PRINCESA DESALENTO


Minh'alma  a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
 magoada e plida e sombria,
Como soluos trgicos do vento!

 frgil como o sonho dum momento;
Soturna como preces de agonia,
Vive do riso duma bca fria:
Minh'alma  a Princesa Desalento...

Altas horas da noite ela vagueia...
E ao luar suavssimo, que anseia,
Pe-se a falar de tanta coisa morta!

O luar ouve a minh'alma, ajoelhado,
E vai traar, fantstico e gelado,
A sombra duma cruz  tua porta...




SOMBRA


De olheiras roxas, roxas, qusi pretas,
De olhos lmpidos, doces, languescentes,
Lagos em calma, plidos, dormentes.
Onde se debruassem violetas...

De mos esguias, finas hastes quietas,
Que o vento no baloia em noites quentes...
Nocturno de Chopin... risos dolentes...
Versos tristes em sonhos de Poetas...

Beijo doce de aromas perturbantes...
Rosal bemdito que d rosas...  Dantes
Esta era Eu e Eu era a Idolatrada!...

Oh tanta cinza morta... o vento a leve!
Vou sendo agora em ti a sombra leve
D'algum que dobra a curva duma estrada...




HORA QUE PASSA


Vejo-me triste, abandonada e s
Bem como um co sem dono e que o procura,
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ningum faz d!
Minh'alma triste, dolorida e escura,
Minh'alma sem amor  cinza e p,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragdia to funda no meu peito!...
Quanta iluso morrendo que esvoaa!
Quanto sonho a nascer e j desfeito!

Deus!  Como  triste a hora quando morre...
O instante que foge, va, e passa...
Fiozinho d'gua triste... a vida corre...




DA MINHA JANELA


Mar alto!  Ondas quebradas e vencidas
Num soluar aflito e murmurado...
Vo de gaivotas, leve, imaculado,
Como neves nos pncaros nascidas!

Sol!  Ave a tombar, asas j feridas,
Batendo ainda num arfar pausado...
 meu doce poente torturado
Rezo-te em mim, chorando, mos erguidas!

Meu verso de Samain cheio de graa,
'Inda no s claro j s luar
Como um branco lilaz que se desfaa!

Amor!  Teu corao trago-o no peito...
Pulsa dentro de mim como ste mar
Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!...




SOL POENTE


Tardinha...  Ave Maria, Me de Deus...
E reza a voz dos sinos e das noras...
O sol que morre tem clares d'auroras,
guia que bate as asas pelos cus!

Horas que tem a cr dos olhos teus...
Horas evocadoras doutras horas...
Lembranas de fantsticos outroras,
De sonhos que no tenho e que eram meus!

Horas em que as sadades, p'las estradas
Inclinam as cabeas mart'risadas
E ficam pensativas... meditando...

Morrem verbenas silenciosamente...
E o rubro sol da tua bca ardente
Vai-me a plida bca desfolhando...




EXALTAO


Viver!...  Beber o vento e o sol!...  Erguer
Ao cu os coraes a palpitar!
Deus fz os nossos braos p'ra prender,
E a bca fz-se sangue p'ra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto a arder!...
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrlas desprender!...
A glria!...  A fama!...  O orgulho de criar!...

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos extticos, pagos!...

Trago na bca o corao dos cravos!
Bomios, vagabundos, e poetas:
--Como eu sou vossa Irm,  meus Irmos!...



=Notas de transcrio=

Apliquei a errata existente no final da obra completa nas pginas
correspondentes:

Pg 62:  hora da doce ansiedade ->  hora doce da ansiedade
Pg 63: a noite a iluminar -> a noite iluminar
Pg 80: Erguer! -> Erguer




[End of _Livro de Sror Sadade_ by Florbela Espanca]
[Fin de _Livro de Sror Sadade_ par Florbela Espanca]